Pastoral Familiar

A FAMÍLIA E A SOCIEDADE

Ari Camolesi

A mais triste das tristezas: um filho que não se entende com os próprios pais. Entre eles, uma barreira intransponível de desavenças e entre as almas, que deveriam entrelaçar-se na linguagem expressiva do silêncio e dos olhares, um clima saturado de desconfiança.

Um binômio nulo e negro: pais que não honram a sublime missão de ser anjos na terra; filhos que não respeitam a carne que os gerou.

Ambos se destroem, pois derrubam os seus ideais.

O que pode restar de um pai, de uma mãe e de um filho separados por uma muralha fria de incompreensão? O que será da sociedade quando perde a única força capaz de garanti-la sadia e berço da felicidade?

O triste drama da geração moderna. O palco do mundo apresenta-se aos humanos, os panos descerram-se e a cena tem início. Personagens mostram-se: pais e filhos e separando-os um abismo profundo e aterrador. A sociedade perde os seus membros – pais e filhos que se aniquilam, pois não conseguem concretizar uma aliança que deveria ser natural.

Essa é a pior praga que aflige os nossos dias, penetra pela porta principal dos lares, remexe todos os cômodos e sai pela janela dos fundos, levando consigo a paz e a integração de uma família.

Os pais desesperam-se culpando os filhos de milhares de erros, dizendo-os perdidos no lodaçal dos vícios e da irresponsabilidade e os filhos perdem-se com lágrimas nos olhos, suplicando por pais que julgam não os compreender.

O grande vilão desse desentendimento é a falta de carinho – mãos maternas roçando cabelos filiais e palavras paternas de reprimendas,  consolo e orientação.

No entanto, o mundo progrediu muito, excessivamente, o homem tornou-se o conquistador irrefreável, o habitante dos espaços siderais e a vida foi-se mecanizando. Os sentimentos tornaram-se maquinais e enferrujaram em grande parte.

Os amores de pais e filhos também foram afetados e passaram daquela condição instintiva e sublime de renúncia, abnegação e desprendimento para as fases de um respeito exagerado.

Os pais fazem dos filhos simples manequins de vitrine, preocupando-se para que tenham uma aparência externa impecável e os filhos vêem nos pais chefes autoritários e não os amigos de inocentes confidências.

Os pais dizem para todo mundo e em bom tom que os filhos são perfeitos, maravilhosos, com grandes ideais no futuro. E acreditam piamente nestas afirmações.

Quanta ilusão e inocência!

Num triste dia, são surpreendidos por uma gravidez inesperada, por uma ampola de entorpecente num bolso de camisa, pela desistência de um curso que a família prezava tanto e pela dificuldade assustadora de se conseguir um emprego.

E nos corações, onde a alegria deveria fazer morada e a felicidade construir seu ninho, o explodir de um vulcão de incertezas que rouba o sono e provoca pesadelos.

Talvez eu esteja exagerando, viajando sem rumo, e o meu enfoque não se enquadre na época atual.

No entanto, o meu exagero baseia-se em colunas verídicas de jornais: filhos que  maltratam os pais, que chegam a assassiná-los. Pais que vivem em guerra, que se embriagam, que atiram filhos de carros em movimento, que batem sua cabeça em troncos de árvores ou simplesmente os abandonam pelas sarjetas do mundo.

Notícias corriqueiras e diárias.

Parecem-nos, entretanto, que atingem somente a classe pobre que se vê atordoada no barco das dificuldades. O verbo parecer caiu muito bem na análise, pois o real é bem diferente.

Focalizemos agora o problema da juventude viciada. Veremos que expressiva parte dela pertence aos meios sociais mais elevados e poderosos. Isso é lógico, pois o vício é uma indústria de enriquecimento e um pobre não pode dar-se ao luxo de tornar-se um consumidor principalmente das drogas mais elitizadas. Suas limitadas condições não o permitem.

Filhos de famílias abastadas é que se entregam ao uso costumeiro de cocaína, heroína, crack e tantas outras porcarias tão divulgadas pelos meios de comunicação.

Por quê? Qual o motivo? Não estão desesperados, não sofrem, não têm fome. Ou melhor, têm fome sim, uma fome insaciável de ternura e de amor. E chegam a morrer dessa fome, enquanto os pais correm desesperados atrás dos seus sagrados compromissos.

E o bom dia caloroso e interessado no despertar de cada manhã? E as conversas em família, relatando cada um o seu dia de vida e no que ele contribuiu para aperfeiçoar-se como pessoa? E os abraços que dão segurança e que mostram uma presença com a qual se pode  contar? E aqueles beijos molhados de um passado distante, incansavelmente repetidos, estralando pelos cômodos da casa?

A mais triste das tristezas: filhos que não se entendem com os próprios pais e entre eles, um abismo intransponível.

As famílias desintegrando-se dia a dia, deixando de ser a base da sociedade, não ensinando valores que só a elas cabe ensinar e a nação, por esse motivo, desferindo pela existência passos de caranguejo.

Não há sociedade sadia com lares desfeitos e em crise. Quando a família desempenhar a missão que lhe foi confiada, quando os pais representarem mais do que carteiras se abrindo e bocas criticando e quando os filhos se sentirem verdadeiramente amados e protegidos, aí sim, estarei convicto de que o mundo progredirá, pois na família e só nela concentra-se o tônico da sobrevivência e do desenvolvimento.  

AMAR NUNCA É DEMAIS

Ari Camolesi

Tanta violência pelos cantos das cidades e tão poucas pessoas dispostas a amar. Cada vez mais e volumosos investimentos em sistemas de segurança e cada vez menos e mais distante a possibilidade de uma vida livre e segura.

Tanta miséria pelos recantos dos Estados e tão poucas mãos dispostas a ajudar. Cada vez mais discursos inflamados gritando contra a fome e cada vez menos o trabalhador tratado com justiça, recebendo o salário que merece.

Tanta falsidade pelas regiões do país e tão poucas inteligências comprometidas com a verdade. Cada vez mais promessas que nunca foram e jamais serão cumpridas e cada vez menos a possibilidade de um mundo de confiança e amor.

Amor, vale a pena falar nele, enaltecê-lo e jamais se cansar de propagá-lo. Única porta de saída, única luz no final do túnel, única esperança que jamais morre.

Estrelas brilham no céu e os homens insistem em espalhar trevas. A lua alimenta a paixão dos namorados e as realizações humanas persistem em destruir sonhos. O sol continua a despertar o olhar para o novo dia e os corações teimam em dormir e não renascer.

Amar, vale a pena amar, pois amar nunca é demais! Espalhar os seus respingos abençoados  sobre as armas da violência, neutralizando os seus efeitos. Inundar, com seu calor, mãos egoístas, e torná-las generosas e doadoras.  Contaminar, com seu hálito de sabedoria, bocas viciadas em politicagens, transformando-as em mensageiras da boa nova.

Diante da violência e falta de segurança, amar; diante da miséria e falta de providências, amar; diante da falsidade e falta de compromissos verdadeiros, amar.

Se houver a tentação de desistir, lembrar do homem que mais amou e das suas sábias lições que continuam vivas através dos seus seguidores, corajosos e intrépidos anunciantes da boa nova.

Após a morte de Jesus Cristo, os discípulos do Mestre reúnem-se com João para serem orientados a respeito do que deveriam falar às comunidades cristãs que se formavam. João, com voz firme, proclama:

- Saiam, visitem os grupos que estão se formando e digam aos adeptos do cristianismo que a verdade é: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Passadas algumas semanas, os discípulos voltam e perguntam:

- João, já pregamos o que você nos pediu. E agora, o que devemos falar?

João, fitando-os com crença inabalável no Cristo ressuscitado e com palavras carregadas de imenso querer, responde:

- Andem e onde estiverem, ensinem: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Os discípulos acham estranho receber a mesma orientação, comentam entre si, mas nenhum deles tem coragem de contestar. Após o trabalho realizado regressam, colocam João a par do que fizeram e aguardam novas instruções.

 João, convicto, reforça:

 - “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Esta é a boa nova para estas ovelhas dispersas do rebanho e que necessitam do bom pastor”.

Um dos discípulos, mais afoito e não podendo conter a sua desilusão, pronuncia-se dizendo:

- É a terceira vez que você repete a mesma coisa. Será que não é hora de mudar? Queremos uma outra mensagem, pois já estamos cansados de espalhar o mesmo ensinamento.

 João, sem se abalar e alicerçado na sua fé, explode num grito de santa revolta:

 - Ouçam bem o que vou lhes dizer, não se esqueçam e não perguntem nunca mais. Não há nenhuma novidade, fora de cogitação qualquer outra mensagem, pois o eterno novo é e será sempre: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Se vocês estão cansados de falar, se estas palavras não lhes despertam e aumentam o entusiasmo, as pessoas ainda precisam ouvir; se pensam que o trabalho está concluído e outros vocábulos são necessários, elas ainda não entenderam e não praticam; se julgam que o amor é velho e cansativo, elas não sentem e nem curtem o seu sabor.

As mentes estão endurecidas, iguais a um guarda chuva fechado que não serve para nada.

Continuem pregando, não desanimem, insistam cada vez mais.

Um dia, a fome de amor do mundo será saciada pela perseverança dos que nele concretamente acreditam, não se instalam nas tendas do comodismo, armam-se de coragem e vibração e utilizam todas as forças gritando aos quatro ventos a alegria de amar.